
Bem, sabemos que muito já foi falado sobre o filme mais visto da história cinematográfica (ou piratológica) brasileira. O que propomos é um olhar pessoal e crítico sobre o filme para tentar descurtinar algumas impressões.
O filme conta uma história anterior a narrada no livro ” a elite da tropa” (o qual é bem mais violento, diga-se de passagem)nos apresentando os personagens e o dia a dia de alguns policiais do Rio de Janeiro definindo de forma clara que a polícia militar está imersa na corrupção e o BOPE, uma divisão especializada em operações especiais, seria o único batalhão motivado pela honra e pela glória da farda. O BOPE não foi criado para prender “bandido”, mas para resolver problemas, eles não fazem reféns, são treinados para guerras urbanas, ou seja, numa visão bélica, num combate, a principal finalidade é matar o inimigo.
Assim, tanto o filme como o BOPE caiu no gosto da população, a qual, mergulhada numa incessante sensação de insegurança, clama por medidas fortes e precisas, tais quais são mostradas na película, numa espécie de catarse coletiva de uma sociedade que busca por vingança pelas violências sofridas diariamente.
Por outro lado, uma crítica pseudo-intelectualizada acusa o filme de incentivar a violência, de ser conservador e anuir com a tortura, o que é um absurdo. Face a liberdade de expressão a história retrata apenas uma realidade que se passa nos morros cariocas, conflitos e desgraças que ocorrem com homens que se degladiam entre si, porém sob a ótica da força instituida.
Logicamente que, tecnicamente e juridicamente falando, mesmo que louvados pela população, os policiais do BOPE representam em suas atividades o Estado, o qual está limitado por uma série de parâmetros constitucionais como a dignidade da pessoa humana e os conceitos inerentes ao próprio Estado Democrático de Direito. É o preço que se paga por viver numa democracia, ou seja, o Estado não pode violar determinadas garantias individuais, que inclusive são mostradas (torturas, invasão de domicílio, etc), ainda que autorizado pela maioria. Caso esta decisão fosse tomada, a única medida a ser tomada seria rasgar a Constituição, entregar um tacape para cada um e então aceitar a lei do mais forte. Não estou dizendo que os criminosos podem fazer de tudo, mas que o Estado não pode extrapolar seus limites democráticos sob pena de se deslegitimar.
Por outro lado, é óbvio que o filme retrata um olhar, que é a dos policiais e, sendo assim, é parcial, passional, eles estão no conflito, na guerra sendo tratados como soldados, criados para matar e assim devem agir para não morrer. Eles lutam contra um inimigo que só vê o Estado subir no morro ou para extorquir ou com uma caveira para matar. Como será a relação entre estes dois personagens?
A veja desta semana, parcial e babaca como sempre, diz que o filme finalmente mostra a realidade, trata o bandido como bandido e que o consumidor é o maior responsável pela existência do tráfico. Pobre engando! O filme mostra uma visão da realidade. Tratar o bandido como bandido é torturá-lo e matá-lo? Mas quem é esse bandido? Como se define bandido? É aquele que viola a lei? A pirataria não é crime? Todos que piratiaram este filme são bandidos e merecem o mesmo destino de alguns de seus personagens? O tráfico existe numa relação mercantil, de consumo. Assim, o usuário é tão responsável pelo tráfico quanto o consumidor de produtos manufaturados é responsável pela exploração da mão-de-obra barata na China.
Trata-se de um questão bastante complexa que merece uma discussão mais ampla, mas que em nenhum momento compromete o valor do filme, tanto como “denúncia” como uma boa história policial.